terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Acampamento Indígena Revolucionário (AIR): a Guerra dos Tamoios Contemporânea - Última Parte


Carlos Pankararu em foto tirada em junho do ano passado: os indígenas exigem participação nas políticas destinadas a eles (foto de Bruno Costa).

Por Marília Lima

Refletir sobre o protagonismo indígena e os indígenas em confronto, resistência ou diálogo com as políticas governamentais é de suma importância tanto para a sobrevivência dos Povos Indígenas, como para se pensar como é tratado o indígena diante dos aparelhos governamentais que, teoricamente, têm como objetivo a proteção dos direitos dos índios. O indígena como ser ativo e atuante da sua própria política e como protagonista da História, e não mais como um ser passivo é a quebra da dicotomia de que os indígenas são seres naturais e, por isso, não são capazes de ter sua própria História e não são capazes de fazer a História. Levar o indígena a sério e a sua política de contestação é pensar no indígena hodiernamente e não mais como um mito justificador da brasilidade. De acordo com Pierre Clastres, a condição indígena também é política:

(...) A condição é renunciar, asceticamente, digamos, à concepção exótica do mundo arcaico, concepção que, em última análise, determina maciçamente o discurso pretensamente científico sobre este mundo. A condição será nesse caso, a decisão de levar enfim a sério o homem das sociedades primitivas, sob todos os seus aspectos e em todas as suas dimensões; inclusive sob o ângulo político, mesmo e sobretudo se este se realiza nas sociedades arcaicas como negação do que ele é no mundo ocidental. É necessário aceitar a idéia de que a negação não significa em nada, e de que, quando o espelho não nos devolve a nossa imagem, isso não prova de que não haja nada que observar. (...) (CLASTRES, 1990, p. 16).

Assim, pensar o indígena como capaz de escrever e atuar na sua própria História é constatar, inclusive, que os indígenas se confrontam com os aparelhos governamentais e com as políticas públicas destinadas a eles. Porém, infelizmente, a maior parte das políticas públicas é para a eliminação da diferença, ou seja, tanto para a destruição física dos indígenas como para a destruição da identidade indígena. Fazendo coro com o antropólogo Pierre Clastres, o Estado parece ter como fim último o etnocídio:

É aceito que o etnocídio é a supressão das diferenças culturais julgadas inferiores e más; é a aplicação de um princípio de identificação de um projeto de redução do outro ao mesmo (o índio amazônico suprimido como outro e reduzido ao mesmo como cidadão brasileiro). Em outras palavras, o etnocídio resulta na dissolução do múltiplo no Um. O que significa agora o Estado? Ele é, por essência, o emprego de uma força centrípeta que tende, quando as circunstâncias o exigem, a esmagar as forças centrífugas inversas. (...) (CLASTRES, 2004, p.87)


Por que o título deste trabalho é “A luta do Acampamento Indígena Revolucionário (AIR): a Guerra dos Tamoios contemporânea?” Por que essa tentativa de resgatar uma história que ocorreu há cerca de quinhentos anos atrás e compará-la com uma manifestação ocorrida em 2010?
Em primeiro lugar, devemos entender que a tática de acampar era tão usual para os indígenas, que era utilizada tanto em guerras interétnicas como também nas batalhas contra o colonizador. O acampamento é um método de guerra, que, provavelmente, é empregado há milênios pelos Povos Indígenas por conta da sua mobilidade, agilidade e por unir ainda mais o grupo étnico insurgente. Assim, o fato de ser um acampamento o meio em que os indígenas encontraram para se reunir em torno das suas reivindicações, já traz consigo um arcabouço simbólico da tradicionalidade e ancestralidade indígena.
Além de carregar esse arcabouço simbólico, o fato de acampar na Esplanada dos Ministérios trouxe outra configuração no espaço moderno de Brasília. Houve uma reconfiguração espacial indígena, onde os manifestantes trouxeram elementos simbólicos da cultura indígena para defronte aos prédios ministeriais modernos da capital brasileira. Como exemplo dos símbolos indígenas, temos: a construção de uma oca, feita de bambus e arames; as redes, para os indígenas dormirem e descansarem, colocadas nas árvores do cerrado (essas mesmas árvores foram cortadas, logo depois, a mando do Governo Distrital, como parte da estratégia de expulsão dos indígenas no local); as fogueiras para aquecer do frio e para cozinhar alimentos etc.
Portanto, podemos caracterizar o movimento intitulado como Acampamento Indígena Revolucionário (AIR), iniciado em janeiro de 2010 e finalizado na sua tática de acampamento no início de setembro de 2010, como expressão do indígena de fazer política, como ser político que é.
A Confederação dos Tamoios, que ocorreu entre 1556 a 1567 é, talvez, a principal revolta dos indígenas contra a colonização portuguesa, onde várias etnias indígenas se uniram contra o jugo do colonizador. Apesar de ter sido dizimada, a Confederação dos Tamoios, é um exemplo histórico da possibilidade de união entre povos indígenas de diferentes etnias na busca pela conquista de um objetivo em comum. Existiram diversas confederações interétnicas no período colonial, porém, a mais significativa é a Confederação dos Tamoios - pela sua importância literária e histórica. E mais do que uma análise comparativa entre a Confederação dos Tamoios e o Acampamento Indígena Revolucionário, este trabalho tem como propósito ressaltar a idéia dessa aliança entre diferentes etnias como uma tática essencial para a insurgência indígena.

BIBLIOGRAFIA

CLASTRES, Pierre. Arqueologia da violência: pesquisas de antropologia política. São Paulo: Cosac & Naify, 2004,

_________________ A Sociedade Contra o Estado: Pesquisas de Antropologia Política. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

FERNANDES, Florestan. A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá. São Paulo: Globo, 2006.

_____________________ A Organização Social dos Tupinambá. São Paulo: Editora Hucitec/Editora UnB, 1989.

FRANCO, Affonso Arinos de Mello. O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa: as origens brasileiras da theoria da bondade natural. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937.
GONÇALVES, Marco Antônio (org). Diários de Campo de Eduardo Galvão: Tenetehara, Kaioá e Índios do Xingu. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Museu do Índio – FUNAI, 1996.

GOMES, Mércio Pereira. O índio na história: o povo Tenetehara em busca da liberdade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
___________________. Antropologia: ciência do homem: filosofia da cultura. São Paulo: Contexto, 2008.

LÉVI-STRAUSS, Claude. As Estruturas Elementares do Parentesco. Petrópolis: Vozes, 2008,

_____________________ Mito e Significado. Lisboa – Portugal: Edições 70, 1978,

_____________________ O Pensamento Selvagem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, Editora da Universidade de São Paulo, 1970.

OLIVEIRA, João Pacheco de (org.). A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/LACED, 2004.

­­­­­­­­­­­­­­­­______________________ A problemática dos “índios misturados” e os limites dos estudos americanistas: um encontro entre antropologia e história. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999.
QUINTILIANO, Aylton. A Guerra dos Tamoios. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1974.

6 comentários:

Anônimo disse...

Estamos com os indígenas do Santuário dos Pajés. Sabemos o quanto é importante a demarcação dessa Terra Indígena.
http://www.youtube.com/watch?v=5g0PUFwko0M&feature=player_profilepage

14 de outubro de 2011 06:28
Anônimo disse...

Gente por favor parem de sonhar! Tudo está saindo do jeito que o governo do PT quer. Parem de escrever besteiras e coloquem o pé no chão definitivamente.


Assinado: Índio

14 de outubro de 2011 08:10
Anônimo disse...

Viva luta do Santuário! Viva a luta do Acampamento Indígena Revolucionário!

17 de outubro de 2011 08:40
Anônimo disse...

Marcelo Craveiros - "Índio" - ocupa a confortável função de ser puxa-saco de assassinos da segurança do Plano Piloto e do funcionalismo público. A luta continua e os parentes resistem: Ypo'i: menos um Guarani, mais indignação e dor

http://www.brasildefato.com.br/content/ypoi-menos-um-guarani-mais-indigna%C3%A7%C3%A3o-e-dor

A dor é real, a resistência é real, não é "sonho" de quem se aboleta em um escritório refrigerado do Plano Piloto. Essa é uma luta de 5011 anos, o "pé no chão" do craveiros é o delírio do burocrata, servo voluntário do dominador que crê estar pisando em no pescoso dos Povos Indígenas Brasileiros e Americanos mas acaba metendo o pé na bosta. Vai se limpar, Craveiros!

17 de outubro de 2011 08:52
FALTA UM INDIO NO PODER disse...

Pode demorar, mais os resultados das lutas chegam.
POR UM ESTADO INDÍGENA INDEPENDENTE...

21 de outubro de 2011 14:23
FALTA UM INDIO NO PODER disse...

POR UM ESTADO INDÍGENA INDEPENDENTE.

21 de outubro de 2011 14:26

Postar um comentário